As Dores do Mundo

21/10/2017

J. Herculano Pires
“Porfiai por entrar pela porta estreita.”
(Lucas, 13:24)

A sabedoria do Mestre de Nazaré ressuma altaneira das páginas luminosas de seu Evangelho. Seus preceitos devem ser refletidos não apenas por sua estética e poesia inigualáveis; nem mesmo por seu elevado teor eticorreligioso no que se convencionou designar como religião, mas especialmente por suas diretrizes práticas aplicáveis ao cotidiano de todos nós.

Uma dessas metáforas de grande alcance pragmático é sem dúvida aquela que nos assinala a existência de portas que se apresentam nos caminhos construídos em nossas experiências de vida. A porta larga é estrada de perdição, porfiai, portanto, para passar pela porta estreita que conduz à salvação.

Aos olhos do homem que se considera racional em nosso mundo contemporâneo, isso pode parecer uma afirmativa, no mínimo, contraditória e, às vezes, motivadora de um comportamento masoquista.
Mas se compreendermos a porta metafórica como resultado das nossas buscas de adentrar a felicidade sem jaça, imperecível e imarcescível, porque independente da mutabilidade da matéria, a lógica se estabelece de imediato, mesmo que busquemos utilizar parâmetros humanos da tão decantada meritocracia dos nossos tempos, posto ser a porta larga sinônimo de inoperância, de ausência de maiores esforços e até mesmo do usufruto excessivo e desproporcional dos gozos terrenos.

Por essa porta, encontramos a multidão de seres passíveis de classificação em três grupos a saber: os perversos, os indolentes e os indiferentes.

O primeiro deles correspondente ao sentido etimológico do termo, composto pelos distanciados e combatentes do Bem, conscientes do seu estado, que persistem nessa posição aberrante do seu significado existencial. Eles escandalizam a sociedade e lhe influenciam fortemente o comportamento, criando-lhe objetivos factícios de felicidade fácil pelos prazeres sensoriais. De maneira inescrupulosa, conduzem-na com máscara de modernidade, de liberdade e de inteligência.

O grupo dos indolentes é constituído por aquelas pessoas que, de alguma forma, já identificaram o seu estado disfuncional relativo â Lei Divina, mas que se esforçam por anestesiar a consciência, com o ópio da dúvida, na obliteração das reações naturais de arrependimento, a justificarem o seu comportamento sob a alegativa de necessidades de aproveitamento da vida, do gozo frequente e persistente, em esforço de felicidade construída em terreno pantanoso, nas areias movediças das ilusões. Rotulam-se como portadoras de grande discernimento e capacitadas ao bom aproveitamento da existência terrena.

Os indiferentes são os tíbios da fé e da temperança, desesperançados da vida que abriram mão do uso de seu livre-arbítrio e da sua vontade e se deixam arrastar como folhas outonais pelos vendavais tempestuosos da impiedade. Em seus descaminhos, edificam portas dilatadas que os fazem penetrar em regiões abismais, não apenas do ponto de vista material, mas especialmente em regiões tenebrosas e profundas do distanciamento da Lei de Deus. Embora não reconheçam, são esses os irmãos desarvorados e em desalinho, os aflitos, em caminhada perpétua por caminho semelhante até que se disponham, em determinado momento de sua trajetória infeliz, a erguer a cabeça e arregaçar as mangas para a construção dificultosa e laboriosa da porta estreita, pois os que porfiam por ela, em esforço continuado e relevante, abrindo mão das comodidades e aparências mundanas, cumprindo o seu papel de homens no mundo, com os pés assentados sobre o solo terreno, cientes de suas responsabilidades, mas com a mente e o coração projetados para o seu futuro de consciência imortal e anímica dos motivos maiores de sua trajetória espiritual.

Esses, os que do ponto de vista da maioria da sociedade terrena, são considerados alienados, esquisitos e pouco inteligentes, pouco racionais, são os justos que serão salvos da impiedade, das trevas e do abismo consciencial. Transitam pelas estradas terenas carregando suas provas, suportando as expiações e consolidando as missões que lhes foram confiadas, sob dificuldades e açoites, porque a evolução se faz com esforço e dificuldade, o que significa abandono de velhos hábitos e construção de uma nova realidade.

Porfiemos, pois, pela porta estreita e seremos salvos.

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(1) Página psicofonada, em Reunião de Desobsessão, no ICE-CE, no dia 02/07/2016.