“Observai os lírios dos campos”

11/12/2017

por Francisco Cajazeiras

Somos todos passageiros do veículo da evolução, utilizando-nos do instrumental da nave terrena que viabiliza os recursos de que necessitamos para o nosso treinamento anímico. Para tanto recebemos o kit corporal, composto de todo o material para a vida na dimensão física.

Porém, no atual estadiamento em que se encontra a Humanidade, como decorrência das andanças inumeráveis a que já nos expusemos e especialmente porque temos percorrido a escalada do progresso espiritual, invariavelmente atrelado à matéria mais densificada, é muito forte a nossa identificação com essa matéria grosseira e a nossa atração por ela.

Aliás, mesmo quando retornamos à dimensão entendida como “espiritual” aqui na Terra, ainda assim somos transferidos para planos materiais, ou como queiram semimateriais, o que implica em uma gradação fluídica que, ao ser comparada à do corpo planetário, é bastante sutil conquanto ainda seja matéria.

O fato é que grande parte das pessoas considera-se unicamente corpo somático e aplica todos os seus recursos para a manutenção do prazer corporal, fixando sua idéia e consumindo toda sua energia para a execução desse ideal: saúde física, modelagem corporal, manutenção da vida somática.

Busca-se sofregamente ampliar os bens terrenos e desviar a própria atenção com exclusividade para a faceta humana da sua consideração: o imóvel, o carro, a roupa, o dinheiro…

Até as religiões que, em número, crescem de forma vertiginosa, prometem, no comum (e indevidamente), a solução para todos os problemas daquele que lhe segue: afetivos, familiares, sociais, de emprego, relativos à aquisição de riquezas etc…

E por orientar-se, especialmente, para tal posição, quando não consegue ver esses seus problemas solucionados, o indivíduo deprime-se e se amargura.

É indiscutível a necessidade de certos bens materiais para que sejam asseguradas as mínimas condições para uma vida digna e produtiva. Porém, preciso é entender que somos muito exigentes quanto a essas supostas necessidades e frequentemente ocupamos demais a nossa atenção na ânsia de possuirmos cada vez mais, esquecendo-nos que, via de regra, somos mesmo é possuídos pela posse, permitimo-nos escravizar por Mamon.
Jesus, em sua fabulosa sabedoria, deixou-nos singular e belo ensinamento inserido no denominado Sermão do Monte:

“Não andeis ansiosos pela vossa vida quanto ao que haveis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais que o alimento e o corpo mais que o vestuário? (…) Observai como crescem os lírios do campo. Eles não trabalham nem fiam.
Eu porém vos digo que nem mesmo Salomão em toda a sua glória se vestiu como qualquer um deles.
Se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vestirá muito mais a vós, homens de pequena fé?(…)
Portanto não andeis ansiosos pelo dia de amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu próprio mal”.(1)

Essa magnífica e bela passagem evangélica não deve naturalmente ser observada de modo literalista, posto que assim veríamos abolido qualquer esforço no sentido da auto-manutenção, o que sem dúvida viria a redundar em retumbante desastre.

O trabalho é uma das leis naturais de que nos falam os Espíritos Reveladores no Terceiro Livro da obra primeira da Codificação Kardeciana: “O Livro dos Espíritos”.

É exatamente pela realização dessa atividade mantenedora da sobrevivência do ser que o Espírito vai desenvolvendo a sua capacidade intelectual e de discernimento, bem como cumprindo a sua parte no desenvolvimento da obra da criação.

Como se vê não é possível nos atermos à letra do ensinamento, mas extrairmos a mensagem de que é detentora.

Aqui, vemos Jesus, de forma didática e em consonância com a capacidade interpretativa de sua época, lembrar-nos da impropriedade de nos mantermos apegados à coisa material, assim como também, fazer-nos refletir e compreender a ação da Providência Divina em nossas vidas.

O Criador a ninguém desampara. Estejamos em qualquer lugar, façamos o que fizermos, digamos o que dissermos, Deus nunca nos faltará e sempre nos proverá das melhores possibilidades a fim de nos permitir agir invariavelmente da melhor forma e sempre com o desiderato no Bem. Para tanto, contamos com a nossa consciência, falando-nos pela via intuitiva; contamos com os familiares e amigos (encarnados e desencarnados) que se fazem consciente ou inconscientemente mensageiros da Divindade, alertando-nos para os perigos, dirigindo-nos a atenção para as melhores soluções e pondo ao nosso dispor as mais diversas situações capazes de facilitarem-nos o melhor desempenho possível.

Se a natureza é tratada com indiscutível amor, por que ocorreria o oposto conosco, também criação divina?

O grande problema é que, repetidas vezes, fazemo-nos surdos aos clamores naturais, cegos à luz da lógica e do bom senso, impermeáveis à ação do orvalho ameno que se faz em nossas existências. Essas limitações que nos impedem de perceber a ação magnânima do Criador, através do que se passou a chamar de Providência Divina, são uma decorrência da descrença, da ambição, da inveja, do egoísmo, do inconformismo e de outras tantas mazelas que nos amarguram a existência terrena.

Indispensável, pois, a adoção de uma postura mais humilde ante a vida, do desenvolvimento da fé pela razão, do conhecimento capaz de iluminar as consciências.

Nesse sentido, muito poderá nos beneficiar o estudo continuado da Doutrina dos Espíritos, capaz de oferecer-nos os recursos de que carecemos para esse despertar para as coisas do Espírito.

Deus está conosco! É bastante atentarmos para a observação do Mestre de Nazaré:

“Observai os lírios do campo… Eles não trabalham nem fiam…”

(1) Mateus, 06: 25, 28, 29, 30, 34.